João Baeta
Iki-ningyo
4/11/2017

7/12/2017
21:30
Exposição
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O mundo é povoado por imagens, acontecimentos, figuras e ficções. Se para alguns esta abundância corresponde a um excesso e é duvidosa, para outros existe como magma donde podem emergir novos mundos. Estes últimos, consideram que será nesta pluralidade de mundos, entre as evidências da acção ou da passividade, que poderemos pensar novos territórios do pensamento e produzir novas possibilidades de existência.

Efectivamente o presente ao mostrar-se incerto, permite que algumas vozes possam exibir um cepticismo exacerbado, no entanto para outras, assoma-se como circunstância fértil de oportunidades diversas que arriscam estabelecer as condições que viabilizam a mudança e a liberdade. Um presente que não é do imediato, como afirma Nancy, é “um presente no qual se apresenta algo ou alguém: o presente de uma vinda, de uma aproximação” (1). Esta aproximação do singular não se destina a juízos apressados próprios dum único olhar, viável apenas para quem se esquece do tempo que passa e que pode ser descoberto sob uma claridade difusa.

Assim, contrariamente à ideia de luz brilhante e uniforme do ideal do conhecimento ocidental e da tradição judaico-cristã, exige aceitar a densidade da escuridão e do silencio, própria dos espaços sombrios, as mesmas que Tanizaki reconhece serem as condições propícias e necessárias para descobrir a profundidade do negro dos lacados japoneses. (2)

O exercício que teremos de fazer ao olhar para estas imagens de João Baeta no Mupy Gallery, sem querer criar uma explicação ou substituir a experiência de cada um que se coloque perante elas, empurra-nos para dados sensíveis que nos colocam no território do pensamento e da sensação, onde reina a lógica do inconsciente estético. Um território, onde se podem encontrar os “testemunhos de um pensamento imanente a seu outro e habitado por seu outro, escrito em toda parte na linguagem dos signos sensíveis e dissimulado em seu âmago obscuro”. (3)

Se parecem obscuras, parecem-no porque relacionam simultaneamente o que consideramos ser a representação do real e do fantástico, do sentido e do sem-sentido, daquilo que é do visível e do invisível.

As fotografias dentro daquilo que podemos considerar formalmente como retrato, não nos mostram o rosto de seres humanos, mas de bonecas. Esses objectos do quotidiano, modo de representação do ser humano, usada como brinquedo pelas crianças, é similarmente utilizadas em diversos pontos do mundo, ainda hoje, por adultos em cerimónias religiosas e em rituais mágicos.

O que prevalece nestes semelhantes, nestes retratos, afasta-nos de qualquer possibilidade de as lermos ou entendermos como um duplo do Real. Essa impossibilidade surge não só da impossibilidade de reproduzir seja o que for, mas ao invés, da possibilidade de criar um equivalente. Porque este equivalente nestas imagens, são em cada uma delas, sempre um equivalente de outro equivalente. Portanto, o seu poder provavelmente reside nesse encadeamento, nessa infinita criação de relações de sentido, de linhas de fuga, que substituem uma noção por outra, mesmo que indeterminável. São como as Iki-ningyo, formas visuais vivas.


(1) Jean-Luc Nancy, A Equivalência das Catástrofes (2014: 54)
(2) Junichiró Tanizaki, O Elogio da Sombra (2016:26-27)
(3) Jacques Rancière, O inconsciente Estético (2009:50)

Texto da autoria de Trapo

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